A filosofia do yoga e o espírito surfista, marcado(s) pela conexão com a natureza e a presença plena, me ensinam muito sobre como respirar e seguir com mais calma e leveza fora do mar e do tapetinho, quando os perrengues e os desafios cotidianos vem bater à porta. Ou quando o swell das vicissitudes da vida chega com uma força muito maior e mais avassaladora do que as marolinhas corriqueiras a que estamos acostumados.

Pois dia desses aprendi uma lição e tanto com o mar. A minha amiga Marília, que surfa melhor e há mais tempo que eu, ainda me perguntou: “mas o que tu foi fazer lá dentro, não viu que tava grande?”.  “É, da areia não dava muito bem para ver”, tentei justificar meio sem graça. Mas não colou. E vou explicar por que, mas antes vem mergulhar nesse mar grandão comigo.

Entrei na água daquele jeito, já querendo chegar lá. Dei de ansiosinha e saí pegando uma onda qualquer, só para dar uma quebrada na remada, naquele meio do caminho. Resultado: a corrente me jogou ainda mais para o inside. Daí foi um sufoco conseguir remar até o outside, porque a arrebentação e a corrente insistiam em me mandar pro canto contrário, pra longe do meu amor, que seguia em linha reta para nosso destino e observava, um tanto apreensivo, tudo à distância, tentando me fisgar de volta com o olhar.

Puff, puff, lá fui eu, respirando, remando, respirando, remando, respirando e rema, rema, rema, não para, ah, não deu tempo, força no braço, afunda a prancha, fura a onda. Tira a cabecinha de tartaruga pra fora, respira, respira, mas rema de novo, que tem mais onda vindo aí. E de novo, força, só mais uma e outra vez. Ombros, pescoço, braços. Tudo já reclamando. Pedindo uma pausa. Mas fui indo, na manha, sem me desesperar, até que finalmente consegui, cheguei ao lado de lá do mundo onde as ondas se formam mas não explodem em cima da gente, e onde o olhar do meu amor conseguia me pescar. A tal da zona de conforto. De descanso.

Tinham umas 20 pessoas disputando uma linda e feroz formação, que quebrava há uns seguros bons metros de onde eu estava. Eu podia parar um pouco e respirar, não tinha interesse em participar daquela disputa. Já tinha me ligado que não era para mim, não naquele dia. Não naquelas condições, o que já foi super sábio da minha parte. Porque o espírito surfista – do qual já vou falar um pouco mais – me ensinou que não adianta me meter de pato a ganso porque eu só consigo dar conta do que eu consigo dar conta. E realizar isso tinha me dado uma breve sensação de leveza e tranquilidade. Eu ainda me embriagava na doçura desse lampejo passageiro, de que não ia surfar aquelas ondonas, quando meu sistema nervoso entrou em alerta e se preparou para o que mesmo? Lutar ou fugir? Lutar ou fugir? Ai, agora é que não dá tempo mesmo. Foi.

E eu fui, com toda força, na direção oposta à onda, segurei minha prancha com toda força, a inclinei para baixo e BOOOOM-PHSWHHH, seguido do som do rádio fora de sintonia, no volume máximo, e a sensação de estar dentro de uma máquina de lavar cheia de espuma e com algumas peças duras, me jogando pra lá e para cá. Socorro. Mais uma vez imito as tartarugas marinhas que circulam por ali e empertigo todo meu pescoço para conseguir tirar o nariz fora d’água e, paraíso na terra, puff, ar entrando nos pulmões. Estou viva. Intacta. Ufa. Olho para os lados. Todos os varridos estão bem? Sim, todos bem. O saldo, do lado do meu companheiro, foi só uma cordinha arrebentada e uma prancha à deriva, logo em seguida recuperada.

Mas nem sempre é assim. Tem dia, como havia acontecido na véspera, que o mar é mais potente, e uma centrifugação dessas pode resultar num ferimento, como um pequeno talho fechado a quatro pontos no braço, ou uma pancada mais séria. Porque o mar, a natureza, as leis que regem o universo são sempre maiores e mais fortes que nós. E não dá para ficar se achando o dono do campinho, porque a vida sempre tem esse poder de nos colocar dentro da centrífuga. Assim é: temos de entender que não somos os regentes, muito menos os compositores desta orquestra chamada vida, somos apenas meros integrantes desse arranjo que já existia muito antes de nós e que seguirá existindo muito depois da gente também.

Tanto a filosofia do yoga quanto o espírito surfista nos lembram a toda hora disso: estar no controle é uma mera ilusão; quando muito, podemos tentar direcionar melhor nossos pensamentos e, a partir daí, escolher melhor nossas ações. Pois depois de ler, por um feliz acaso, o livro Espírito de Surfista, de Jonas Bach, em que o autor explora de forma bem poética e profunda a relação entre o mar, a prancha e o surfista, para falar da possibilidade de transcendência e de superação dos desafios – cerne desse modus operandi de viver – me dei conta de que deveria ter sentado mais tempo na areia aquele dia. Afinal, não é só de mar que é feita a praia, lembra Bach. Sempre podemos encontrar terra firme, veja que paradoxo, naqueles milhares de grãos movediços que se derramam pela orla.

É, talvez não tivesse dado mesmo para prever com acuracidade a força das águas, mas se eu tivesse parado um pouquinho, sentado no solo macio, para observar mais, talvez percebesse que o mar não tava para oba, oba – ou para mim. Que era preciso redobrar a cautela. O cuidado. Ou juntar minhas tralhinhas, dar meia volta e ir embora. Mas eu resolvi me atirar com tudo, só porque vinha de uma sequência de caídas que estavam dando certo, colecionando umas esquerdinhas divertidas e um pouco mais radicais. Se foi uma decisão errada, ainda não sei. Só sei que, na próxima, antes de escolher entrar ou não, vou primeiro sentar para ponderar e apreciar a beleza e a segurança que a areia pode nos dar. E, à beira-mar da praia ou da vida, pensar sem atropelos, nos desafios que posso ou nos que ainda preciso me preparar para enfrentar.

Lia Luz, jornalista, escritora e professora de yoga

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