Conheci Mempo Giardinelli num seminário, em meados dos anos 80 quando tinha quase 20 anos. Já era sua leitora e tinha conseguido quase todos os títulos do autor de Luna Caliente. Mas havia um livro que não havia conseguido: Por qué prohibieron el circo? Do alto da minha inconsequente juventude perguntei a ele se não existia mais à venda este texto. Ele respondeu que o havia proibido. Até hoje não sei o motivo da censura. Se dele, ou da ditadura argentina de então.
Se proibiram o circo do Mempo, não proibiram Vidas ejemplares, uma obra com contos bem elaborados que consegui no original não me lembro mais como. Um conto que se chama La necesidad de ver el mar fala de um trago entre amigos que acaba numa viagem até à beira da praia. Hesperidina, uma bebida feita com casca de laranja que meu pai costumava oferecer depois dos jantares que oferecia na Lobo da Costa, é definida por Mempo como a bebida da amizade. Mas tenho mais dois causos para contar do escritor.
O primeiro é que traduzi um dos contos chamado Como los pájaros para a revista Sextante da Fabico, no ano em que me formei em jornalismo. Foi minha única incursão como tradutora, mesmo sendo fluente no inglês e francês, além do espanhol. Acho um temor passar um texto de uma língua para outra e não me considero capaz. O terceiro causo é que recebi uma carta do argentino que ficou anos guardada pela minha orientadora, Maria do Carmo, que depois me passou e que acabou sucumbindo às mudanças que fiz na biblioteca aqui de casa e de endereço.
Não tenho a prova de minha relação com este cara que depois de perder mais de três vezes seus livros das estantes (exílio um dos principais motivos) hoje coordena uma grande biblioteca em Resistencia, sua cidade natal no Chaco Argentino, onde vive. Eu, acabei doando uma biblioteca com mais de dois mil livros por ter que fazer uma reforma no apartamento para acomodar minha mãe que veio morar comigo. Sei o quanto dói perder livros. É como uma parte do cérebro que se vai, um pedaço da alma que some, uma morte da memória. Não, não é um quadro pendurado na parede, mas como, como dói. Assim como a carta perdida de Mempo.
Susana Vernieri, jornalista, poeta e escritora
